"Talvez tenhamos perdido para sempre a normalidade que conhecíamos"

cecile-domingues-foto-redonda

Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 24

À medida que os dias vão passando, imagino cada vez mais como será o regresso à normalidade. Como será o primeiro dia em que terei de sair de casa para ir trabalhar? Como irei sentir-me perante situações como o trânsito, a confusão e os aglomerados de pessoas? E os almoços com a família e os amigos? 

Talvez tenhamos perdido para sempre a normalidade que conhecíamos. Esta pandemia está a deixar marcas profundas em todos nós, tanto nos nossos comportamentos como também na nossa forma de ser e de sentir. Socialmente falando, não sabemos o que irá acontecer daqui por dois ou três meses e isto assusta-nos. Porquê? Porque, inconscientemente, estamos programados para encontrar uma explicação / resposta para tudo, precisamente para aliviar a ansiedade ligada ao vazio da incógnita. A nossa mente tem de ter sempre uma resposta, e quando não a tem? … Inventa. Os contos para crianças são um bom exemplo de estórias inventadas com intuito de resolver as enigmas existentes naquela faixa etária. O mesmo se aplica numa das mais assustadoras perturbações emocionais que são os ataques de pânico. As pessoas que sofrem de Pânico referem muitas vezes sentirem-se ansiosas em situações que, segundo elas, “não tem razão de ser”. A Ansiedade sentida é tão intensa que o pensamento automático é frequentemente associado à morte iminente. Este processo é, na sua maioria, culpa da nossa mente inconsciente. Na tentativa de responder ao “porquê de estar quase a morrer”, encontra uma explicação racional… ou não. Simplesmente porque ficar sem reposta é pior do que ter uma que não tenha lógica. 

Neste sentido, é provável que ao longo destas semanas, os nossos pensamentos se direcionem para este futuro estranho que se avizinha. Podemos eventualmente começar a desenvolver pensamentos antecipatórios negativos relativamente à nossa forma de ser e de estar em sociedade, à nossa vida pessoal, familiar e/ou financeira. O que é certo é que estes tempos são peculiares e ninguém sabe como irão ser os próximos meses. 

Contudo, é preciso saber gerir emocionalmente estes nossos receios e pensamentos, não nos deixar afetar por algo que ninguém consegue controlar. É assustador pensar desta forma? … Claro que sim! Mas é assustador para toda a gente. A grande certeza é que ninguém sabe como será o amanhã. Então, vamos vivendo dia após dia, dando o nosso melhor. O caminho faz-se caminhado, certo? Então vamos lá construir um trilho diferente.

Até já,
Cécile

Comentários