"Sejam pais que cuidam, que amam, mas também pais que erram"

Dra. Joana Mendes

Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 32

7h00 – toca o telemóvel, hora de levantar… 

Banho rápido, pequeno-almoço, preparar os miúdos: pequenos-almoços, roupas portáteis ligados, televisão na RTP Memória. 

São 9h00, um está na televisão, os outros dois enfiados no quarto com ordens para estudar e não darem um pio; o pai a trabalhar no quarto; a mãe quase a começar mais uma reunião por videoconferência. 

Para-se ao meio dia para preparar o almoço, todos para a mesa e depois arruma-se tudo novamente (estou cansada só de lembrar da azáfama). Período da tarde começa, mas sem campainha para os pequenos e sem o cafezinho na copa da empresa para os grandes.

Entre reuniões e telefonemas, aparece o do meio a bater à porta pois não consegue resolver um problema de Matemática. Depois a mais nova pergunta ansiosa se o professor já respondeu com a nota do trabalho dela (mandei o email, certo?…. Sim, ufa…) Nunca mais chegam as 18h00 para ir para casa… Ah pois…! Já estou em casa.

Entre teletrabalho, cadeias de e-mails entre filhos e professores, as tarefas domésticas e outras preocupações, o pai e a mãe lá de casa estão cansados. Precisam de respirar… Dar um passo atrás… E respirar novamente.
Agora repitam para vocês: Eu não sou professor dos meus filhos!! Não é suposto explicar a tabela periódica, não é suposto saber a diferença entre faire e jouer ou lembrar-me o que é a Proposição d’ Os Lusíadas.

Pais, por favor, sejam honestos com os vossos filhos, digam-lhes que não sabem, mas que se eles quiserem, os ajudam a descobrir a resposta. Os vossos filhos, tal como vocês, vão sentir a falta dos amigos, colegas e dos professores (mesmo que não admitam). As birras e frustrações vão aparecer em força ao longo deste 3º Período. E por isso mesmo vos digo, sejam empáticos e verdadeiros com eles e vejam como ganham aliados para a vida. Não lhes façam crer que tudo está bem, que “isto é só uma fase” e tudo vai voltar ao normal. Isso não podia estar mais longe da verdade. 

Sejam sensatos, tenham a sua idade em conta, mas mostrem-lhes os desafios que vos foram colocados: trabalhar em casa como se estivessem no trabalho; o acréscimo de tarefas domésticas e a possibilidade de dificuldades financeiras.
Sejam pais que cuidam, que amam, mas também pais que erram, mesmo quando tentam fazer o seu melhor. As nossas crianças e adolescentes precisam de pais de carne e osso, durante e depois da pandemia.

Sempre vi os Pais como lentes através das quais os filhos vêem o mundo. Por isso é crucial que essas lentes não estejam nem embaciadas, sujas ou sejam daquelas que aumentam ou diminuem a realidade. 

Pais, perdoem-me a audácia, mas dirijo-me directamente a vocês:
Sejam lentes cristalinas que mostrem a realidade aos vossos filhos, para que as crianças e adolescentes deste país possam criar expectativas ajustadas e realistas quanto ao futuro. Deste modo, quando eles tiverem que olhar o mundo lá fora sem lentes sintam que os pais deles os prepararam para todos os desafios que aí vêm.

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