"Esse lugar negro era cada vez mais negro" | Testemunho

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"E agora? O que está a acontecer comigo?"

Numa determinada altura da nossa vida, em que achamos que estamos totalmente ao comando da mesma, apercebemo-nos de que, afinal, tínhamos ligado o “piloto automático” e, sem querer e sem contar, vamos parar a um lugar totalmente desconhecido, àquele lugar que sabíamos poder existir através de testemunhos de outros, mas que não nos dizia nada e até, eventualmente, nem nos interessava. A vida corria como tinha de correr, cumpria supostamente a sua “normal” missão e, de repente, fruto de variadas circunstâncias, damos por nós nesse tal lugar, aonde supostamente só os tolos ou os fracos lá vão parar. Costuma ser essa a ideia que temos desse lugar porque ainda é isso que ouvimos muito, certo? Mas e se formos nós a ir parar a esse lugar, onde tudo deixa de fazer sentido, onde já não sabemos quem somos, onde simplesmente estamos cansados? Foi aí que eu fui parar, sim. “E agora? O que está a acontecer comigo? Estou tola? Sou fraca? Como cheguei a isto? Como entrei neste lugar negro? Que vergonha! Não quero admitir tal coisa! Isto não me acontece a mim!” (Só aos outros, certo?).  

Pois, mas afinal era verdade. Estava a acontecer. Acontecia-me a mim. Custou muito a admitir. Eu não estava bem e precisava de ajuda. Sabia que sim. Mas não a pedi logo. Pensamos sempre: “Que parvoíce. Isto vai passar. Sou forte. Vou aguentar.” Mas a verdade é que o tempo foi passando e só me sentia cada vez pior. Esse lugar negro era cada vez mais negro e o buraco em que estava, ficava cada vez maior. 

O "clique" e o pedido de ajuda

Então, foi quando tive aquele “clique” e decidi que não podia ser, não podia continuar assim, e assumi, finalmente, que precisava de ajuda profissional. Esta é, sem dúvida, a parte mais difícil porque está sempre lá uma vozinha a dizer que não precisamos de ajuda nenhuma, que a mesma não vai adiantar de nada, que ninguém nos vai conseguir ajudar. Mas, entretanto, reparamos que está lá outra voz (às vezes muito escondida) a dizer-nos, com muita força, que temos mesmo de avançar, que já é tempo, que não podemos viver assim, que pode ser possível, que há esperança. E, assim, arrisquei e marquei finalmente a primeira consulta na Clínica. Foi, sem dúvida, o melhor que fiz! Desde o primeiro minuto que soube que estava muito bem acompanhada por excelentes profissionais, aos quais estou muito grata por toda a ajuda que me proporcionaram. Por me terem ajudado a sair daquele lugar negro em que estava, por me levarem de novo àquele lugar cheio de luz, cores e aromas reconfortantes. Reaprendi a viver, a estar bem comigo e com os outros. Também agradeço àquela voz que estava mais escondida por me ter dado a coragem que precisava. Orgulho-me muito do passo que dei e hoje sei que voltaria a dá-lo e a dar mais ouvidos àquela vozinha que nos enche de força. 

Passei a olhar de um outro modo para quem fala desse lugar negro, com mais compreensão, respeito e empatia, sem lugar a preconceitos e a julgamentos. Hoje sei que é fundamental aprendermos a cuidar da nossa saúde mental, a darmos importância a pequenos sinais que nos dizem que algo não está bem, a respeitar os nossos sentimentos, a não esconder que estamos menos bem só porque temos medo dos julgamentos, a pedirmos ajuda sem medo… E nós temos esse poder. Temos de ser nós a comandar a nossa vida. E, por isto, queria dizer a qualquer um que esteja a passar por uma situação igual ou parecida com a minha, para escutar a voz que está dentro de si, aquela que nos dá a força para avançar em direção à ajuda. É “só” escutar e avançar. É como quando estamos a aprender a andar: o mais difícil é só dar o primeiro passo, depois é sempre para a frente! E se eu consegui, tenho a certeza de que qualquer um consegue. Coragem! Vai correr bem… 

Sandra Mourato

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