Crianças consomem 5 milhões de psicofármacos em Portugal

Não há margem para dúvidas e quem o diz é a Direção Geral da Saúde: as crianças portuguesas até aos 14 anos consomem mais de 5 milhões de doses por ano de psicofármacos relacionados com as anfetaminas, como a Ritalina. Estas prescrições pretendem tratar a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) caracterizada por problemas em prestar e manter a atenção, hiperatividade ou impulsividade. Mas a forma de diagnosticar e tratar este problema muda conforme o local onde se está. Pelo menos 9% das crianças norte-americanas em idade escolar foram diagnosticadas com PHDA e estão medicadas, enquanto que em França a percentagem desce para 0,5%.

Em França não há PDAH?

A vasta maioria dos psiquiatras infantis norte-americanos considera que esta perturbação é de ordem biológica com causas também biológicas, sendo o tratamento concordante: medicações psicoestimulantes. Já os especialistas franceses preferem encarar este problema como o resultado do contexto social em que a criança está inserida, procurando aí as causas do sofrimento da criança. Marylin Wedge, terapeuta e autora de A Disease Called Childhood (Uma doença chamada Infância) destaca o contraste desta visão com a tendência americana de atribuir todos os sintomas da uma disfunção biológica tal como um desequilíbrio químico no cérebro da criança.

A especialista explica, num post de sua autoria, que os psiquiatras franceses não utilizam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais que os psiquiatras americanos e não recorrem ao Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM, preferindo um sistema de classificação alternativo que se foca na “identificação e tratamento das causas psicossociais subjacentes aos sintomas da criança, em vez de procurar os melhores pensos rápidos com os quais mascarar os sintomas”.

Esta abordagem conduz a uma redução do número de diagnósticos de PHDA, cuja definição é menos abrangente do que a do sistema Americano – a qual, na opinião de Wedge, tende a “encarar como psicologicamente anormal muito daquilo que é o comportamento normal da criança”.

Medicalização Desnecessária

Pedro Brás, psicoterapeuta da Clínica da Mente, concorda com esta opinião de que, hoje em dia, ocorre um excesso de diagnósticos focado no tratamento dos sintomas, sem observar as causas:

«O grande problema do nosso tempo é haver uma tendência para caracterizar os comportamentos humanos, sendo que os comportamentos que diferem do pré-estabelecido são considerados "anormais". Sendo assim, estamos a ser influenciados para acreditarmos que temos um “problema”, quando na verdade apenas somos diferentes! Infelizmente, hoje em dia é comum considerar que as crianças que manifestam ansiedade e que se expressam com a excitação normal de quem tem medo, e com o medo perdem o foco nos estudos, têm Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH); os idosos que se sentem sós e choram, estão com Depressão; os trabalhadores com dificuldades em gerir a relação com os superiores e estão sujeitos a grande pressão têm transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Em suma, há um excesso de diagnósticos e com isto, ou, por isso, uma medicalização desnecessária, fazendo crer que as pessoas estão nos estados que estão por estarem doentes, e como doentes a cura é tomar remédios. Mas neste caso os remédios só remedeiam o estado, tentando neutralizar os sintomas, e criando, por outro lado, mais sintomas com os seus efeitos adversos… e entramos numa bola de neve.»

Enquanto a perspetiva francesa analisa, então, fatores como alimentação (como o consumo de corantes e conservantes) e filosofias de educação (como a implementação de regras, de horários e de limites), a americana foca-se no tratamento dos sintomas, privilegiando e encorajando o tratamento farmacológico.

Efeito dos químicos no crescimento

Mas as consequências desta “ligeireza” no diagnóstico e tratamento medicamentoso da hiperatividade infantil não podem ser ignoradas. Álvaro Carvalho, coordenador para o programa de Saúde Mental, destaca, à RTP3, que "efetivamente, é contra indicado controlar quimicamente qualquer pessoa, muito menos crianças, seja com que fármaco for", e que "temos a presunção que, sendo substâncias que vão interferir no comportamento das crianças, são potencialmente lesivas". A administração indevida destes medicamentos é tão ou mais preocupante por se falar de seres em desenvolvimento: "No caso das crianças, como são seres humanos em maturação, em evolução. Estarmos a administrar psicofármacos, sejam eles quais forem, o que vai perturbar esse processo de amadurecimento", adverte o especialista. As situações de "tensão familiar ou dificuldade de adaptação na escola", deixam a criança mais inquieta, e a prescrição de substâncias anti-psicóticas em casos de maior dificuldade de integração do ponto de vista comportamental é muitas vezes precipitada, segundo aponta o especialista, que salienta: "Há casos em que muito rapidamente se passa à utilização de substâncias que só deviam ser dadas em psicoses, que são doenças mentais graves.”
O coordenador para a Saúde Mental nota ainda a "grande pressão da indústria farmacêutica", à qual interessa que as dificuldades comportamentais "sejam consideradas doença", opinião com que Pedro Brás concorda, em conversa com o Correio da Manhã: “obrigar as crianças a alterar os seus comportamentos com psicofármacos é um crime”.

As vozes de Wedge, Álvaro Carvalho e Pedro Brás são uníssonas: há um excesso de diagnósticos de PHDA e o tratamento medicamentoso é precipitado, banalizado e ineficaz. A melhor forma de abordar os problemas de comportamento nas crianças é estudando a sua envolvente e intervindo a nível psicoterapêutico, já que as causas dos problemas de comportamento residirão, essencialmente, na falta de rotinas e regras bem definidas e na ansiedade e medo normais que as crianças sentem.

Texto por Rita Bastos

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