O ciúme é o que se sente quando tememos perder a atenção, o afeto e a segurança de quem nos é próximo, por mudança de interesse dessa pessoa para uma terceira.

Todas as pessoas precisam de estar ligadas à comunidade por laços de amizade que garantam a sua proteção, e por laços de amor à sua família que garantam a procriação e o afeto. Sempre que percebemos que alguém possa pôr em causa as ligações de amizade ou amor que temos estabelecidas com os outros, atraindo a atenção de a quem estamos ligados emocionalmente, entramos num estado de medo e ansiedade temendo a perda provável.

Pedro Brás fala sobre ciúmes obsessivos no programa Queridas Manhãs, da SIC (16/11/2016).

Nas relações de amizade, como cada individuo se liga por elas a um grupo comunitário, pode-se manter várias relações simultâneas, sendo que a noção de perda da amizade não está diretamente relacionada à perda da ligação, mas à perda de tempo disponível do outro para connosco, logo, a diminuição do afeto e da proteção que pode existir do nosso amigo. Na amizade, os outros ameaçam apenas a disponibilidade no nosso amigo para estar connosco, perdendo a ligação que pretendemos e necessitamos ter.

Mas, nas relações familiares, a ligação emocional existente chama-se de Amor. No amor entre duas pessoas capazes de procriar entre si e criar família, o sexo tem um papel fulcral na função de união e da criação da família. Nesta ligação amorosa e sexual, a noção de perda é entendida pelos indivíduos como um desfazer de todo um percurso de vida em prol da criação de uma estrutura familiar capaz de nos imortalizar pela passagem dos valores culturais e materiais entre pais e filhos. As pessoas passam a maior parte da sua vida a criar uma única relação amorosa e qualquer ameaça é vista como força verdadeira destruidora do bem-estar de quem perde a relação. Por isso a possibilidade de perda de uma relação amorosa potencia um estado de vigília elevado, que em condições de equilíbrio emocional, varia em função das evidências da perda que um elemento da relação vai recolhendo.

Um grande motivo para união conjugal é o prazer e a necessidade intrínseca dos seres humanos de fazerem e terem prazer com a atividade sexual. Para haver sexo entre duas pessoas não é preciso haver amor, apenas vontade das duas partes de terem prazer físico. Esta vontade potencia nos seres humanos impulsos emocionais que condicionam a razão e que originam comportamentos não refletidos e fortemente motivados para a obtenção do prazer sexual. Assim, é frequente os seres humanos manterem relacionamentos sexuais fora do relacionamento amoroso e conjugal.

Na nossa sociedade, num relacionamento de amor entre duas pessoas, as relações sexuais, são consideradas exclusivas da relação conjugal, principalmente pela função de procriação que o sexo possibilita. Por isso, qualquer pretensão de um membro da relação de ter um outro parceiro sexual não é tolerado e põe em risco a normal ligação familiar existente. Por isso, quando um elemento do casal se apercebe que há possibilidade de o outro se interessar sexualmente ou relacionalmente por outra pessoa, desenvolve um estado de medo e ansiedade de perder a ligação amorosa que a une e que a motiva na criação familiar. Este medo chama-se ciúme.

Algumas pessoas desenvolvem um nível extremo de ciúmes e, quando é infundado, apenas perturba a relação amorosa, criando stress e conflitos conjugais. É frequente sentirmos um medo extremo de perder a relação sem que haja evidências de perda, mas apenas uma baixa autoconfiança por parte de um elemento do casal, que acredita que o parceiro pode conhecer pessoas muito melhores que ela e que ele se pode sentir atraído para uma relação extraconjugal e, com isso, terminar a existente.

Ciúme obsessivo crónico

Poderemos estar perante uma perturbação obsessiva de ciúmes quando a pessoa, não tendo razão evidente para desconfiar do parceiro, manifesta um medo extremo de ser traída ou de perder o parceiro. Quem sofre desta perturbação, devido ao seu medo extremo, torna-se obsessiva, pois qualquer pensamento que tenha ou qualquer situação que analise sobre a possibilidade de o parceiro poder estar com outras pessoas provoca-lhe o pânico e, com isso, ações de repressão ao seu parceiro, acusando-o de traição ou de intenção de a trair.

Os ciúmes crónicos são a principal forma de violência doméstica, em que o terror psicológico causado provoca conflitos constantes inibindo o parceiro de socializar com colegas e amigos, com medo da repressão conjugal.

Principais atitudes de quem tem ciúmes obsessivos:

  • Controlo de atividade online do parceiro;
  • Controlo de mensagens e telefonemas do parceiro;
  • Vigilância de conversas e atividades, mesmos as profissionais;
  • Comportamentos agressivos com amigos do parceiro;
  • Manipulação emocional do parceiro, inibindo convívio social.

As pessoas alvo destas pressões têm tendência a mentir e a ocultar conversas e reuniões com outras pessoas para que o parceiro não implique, mas estas atitudes, quando descobertas, criam evidências e razão à pessoa que desconfia.

Na origem desta perturbação pode estar uma traição anterior, do atual ou anteriores parceiros, que, tendo sido mal gerida emocionalmente, provoca um medo contínuo.

olho de mulher com expressão triste com reflexo intenso

As crianças que assistem a traições, e ao sofrimento causado por isso nos seus pais, podem também desenvolver o medo de serem traídas por comparação ao sofrimento que assistiram.

Acontece frequentemente que a origem desta perturbação não esteja ligada a traições anteriores, mas a distúrbios emocionais como o Distúrbio Cíclico da Ansiedade, em que o medo de perder o parceiro pode tornar-se irracional e dificilmente controlável, assim como outros medos, tais como o medo de falhar ou o medo de entrar em centros comerciais.

É difícil para as pessoas que sofrem desta obsessão infundada reconhecerem que estão a agir mal, pois acreditam que a culpa é do outro e que elas é que são as vítimas. A maioria destas relações emocionais acabam no divórcio, pois torna-se insuportável a convivência mútua.

As pessoas que sofrem desta perturbação obsessiva porque já foram traídas no passado dizem que desconfiam porque o parceiro já lhes foi infiel. De facto, esta evidencia é forte e causadora de sofrimento. No entanto, quem sofre uma traição, para voltar a ser feliz tem que tomar uma de duas atitudes: ou se separa de uma pessoa que não é confiável e que demonstrou ser desleal, ou, percebendo a traição, aceita as desculpas do parceiro, e aceita a relação apesar de um erro passado. Estas atitudes a tomar são difíceis, mas consegue-se ultrapassar após um período de luto, no qual as pessoas encontrem outros parceiros em que sintam confiança, ou, permanecendo na mesma relação, redescubram a confiança perdida, na crença de que a traição passada foi um erro, mas que todos podemos errar e todos devemos ter outras oportunidades.

A atitude que não se deve tomar, para a felicidade do casal, é não se perdoarem e não se separarem, pois esta situação vai criar uma espiral de conflitos e desconfianças que levam a uma violência mútua que em nada favorece as pessoas envolvidas.

A perturbação mental existe quando a memória da dor da traição existe apesar da vontade de perdoar. O elemento do casal vítima de traição pode, racionalmente, querer desvalorizar não se querendo separar, mas a dor que ainda persiste na sua memória cria um medo extremo de voltar a sentir tal experiência, o que cria uma obsessão pelos comportamentos do parceiro.

O tratamento para estes casos passa pela aceitação do estado de ciúmes obsessivo e crónicos e pelo pedido de ajuda psicoterapêutica, para que seja possível diminuir o medo e a pressão obsessiva que ele causa.

De igual forma, as pessoas que vivem esta perturbação obsessiva motivada por um distúrbio emocional, como o Distúrbio Cíclico da Ansiedade ou da Angústia, encontram na psicoterapia a solução para o equilíbrio emocional.

Texto escrito por Pedro Brás, psicoterapeuta HBM

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