"Será que esta situação irá ajudar as pessoas a darem mais importância à Saúde Mental?"

cecile-domingues-foto-redonda

Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 1

O isolamento social nunca é uma experiência positiva. Estamos afastados de quem mais gostamos e essencialmente sentimo-nos presos na nossa própria casa. Esta nossa natural aversão à mudança deixa-nos mais nervosos, perdidos, sem saber por onde começar. Toda a gente nos diz que é necessário organizar o nosso tempo, criar um espaço improvisado para trabalhar, manter uma rotina de exercício, uma alimentação saudável e quem tiver filhos, conseguir também criar horários e rotinas para eles. 

Todos nós sabemos isso, mas a realidade é bem diferente da teoria

Entre as diretrizes do nosso Governo; as publicações nas redes sociais; os números de infetados, de mortes, de casos atípicos; os cuidados e preocupações com os filhos, os pais, os familiares; as compras em excesso de enlatados, álcool, gel para as mãos, papel higiénico (Porquê? Não faço a menor ideia… Podíamos tentar encontrar uma resposta baseando-nos numa teoria freudiana, mas sinceramente, não interessa muito neste momento). Andamos completamente desorientados. E sabem que mais? Tudo isto é normal.

Ainda estamos a digerir estes últimos dias, mas sabemos que hoje, provavelmente, o nosso Presidente, irá anunciar outras medidas. Maldito vírus! Como é que uma coisa que não se vê consegue criar um desequilíbrio social tão grande? Engraçado (que não tem graça nenhuma) como as coisas que não se veem, são as mais problemáticas… Será que esta situação irá, no futuro, ajudar as pessoas a darem mais importância à Saúde Mental? 

Este é um tempo de mudança e um tempo em que somos obrigados a parar. Há umas semanas, queixávamo-nos de que o tempo passava rápido, que “voava”. Mas neste momento o tempo é lento, difícil de passar e só pensamos “nunca mais este vírus vai embora”. Sem querer ser pessimista, infelizmente, estamos apenas no início do processo. 

Mas então, o que fazer? Como fazer para conseguir viver o nosso dia a dia da forma mais tranquila possível?

1. Antes de mais e no imediato, deixe a sua própria tempestade emocional acalmar um pouco. Permita-se ter tempo (nem que sejam breves minutos) para respirar fundo e se “recompor” de todas estas novidades / mudanças / e outras coisas que terá de gerir e programar. 

2. Depois, informe-se e racionalize! Ouvi dizer que a informação (credível sempre) é neste momento a melhor vacina. Contudo, tenha o cuidado de não estar constantemente a verificar os factos… Lembre-se da máxima: nem 8, nem 80.

3. Tente perceber e apontar tudo o que deve organizar: trabalho; casa; filhos; familiares; entre outros. Depois, priorize as tarefas. O que deve ser implementado de forma urgente? O que pode esperar mais um pouco?

4. Quando estiver tudo mais ou menos implementado, é hora de começar a sua nova rotina da forma que se sentir mais confortável. Não existe uma fórmula mágica da “melhor” rotina, tente perceber o que funciona melhor consigo. 

5. Tenha sempre em mente, que esta fase, é precisamente uma fase. Estamos todos no mesmo barco, todos a fazer este sacrifício para um bem maior. Sempre focados num objetivo comum e na nossa segurança.

6. Encare este tempo como uma oportunidade para parar. Quantas vezes, no passado, pensou que precisava de tempo para si? Para pensar na sua vida, nos seus objetivos? Ou nem que seja para arrumar a pirâmide de roupa lavada que está encostada num canto…

7. Quem tiver crianças, este é o momento ideal para estar com elas. Aproveite! Tem a oportunidade de poder promover bons momentos que serão sempre lembrados pelos seus filhos. 

8. Não faça tudo num só dia ou numa semana. Vamos ser realistas, esta fase ainda irá demorar um pouco. Por muitas ideias de atividades que possa ter, é importante racioná-las. E não se esqueça, por vezes, não ter algo para fazer, também é bom.

9. Medite, relaxe, respire. Conheço pessoas que, por estranho que possa parecer, não sabem ter uma respiração abdominal.

10. Use as redes sociais de forma inteligente, no sentido de ter um suporte social. Nem que seja para desabafar com o seu grupo de amigos. Estamos todos no mesmo barco!

11. Se após tudo isso, continuar com uma Ansiedade avassaladora ao ponto de se sentir completamente bloqueado, sem qualidade de vida e disfuncional no seu dia a dia… É necessário procurar ajuda de um profissional de saúde para conseguir reequilibrar a sua estrutura emocional. Existem consultas por videochamada e, neste caso mais específico, consultas de intervenção em crise, que podem ajudá-lo a reequilibrar-se emocionalmente e a encontrar estratégias para conseguir lidar com esta Ansiedade reativa. Existem evidências científicas sobre a eficácia das consultas realizadas em formato online. Não tenha receio, procure ajuda!

 

Até já,
Cécile

Comentários