"O meu problema era a ilusão que tinha criado à volta destes dias de isolamento"

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Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 12

Já perdi a conta aos dias em que me encontro em isolamento social. Confesso que nem sei que dia é hoje. Este mês de março parece-me ter durado uma eternidade e acredito que o próximo mês se avizinha com as mesmas características. 

Por esta altura, todas as dicas e sugestões de “como criar uma rotina” ou “como organizar o seu tempo em quarentena” devem estar implementadas. Se não for o caso, não se preocupe, não é a única pessoa que não conseguiu fazê-lo. Acredito até que a grande maioria dos portugueses, neste momento, deve estar a passar pelo mesmo estado do que eu (pelo menos espero eu): a frustração de não ter alcançado os objetivos pré-definidos para estas duas primeiras semanas de isolamento. Também eu achei que iria continuar a levantar-me à mesma hora, ficar agradecida por não sentir a pressão de ter de sair de casa as 7h45 em ponto, porque um minuto de atraso representam vinte ou trinta minutos a mais no transito. Planeei usar este tempo para praticar exercício em casa, meditar e até fazer todas as coisas que até agora empurrava para um canto da minha mente, por não ter tempo. Pois bem… Como é que vocês se saíram nestas duas semanas?

Dias atrás, entrei numa onda de frustração tão grande ao ver nas redes sociais, pessoas a mostrarem coisas fantásticas, como se este isolamento fosse uma representação embelezada da velha máxima carpe diem (viver o momento presente). No entanto, como psicoterapeuta que eu sou, parei para pensar e percebi que este meu mal-estar não tinha razão de ser. Quem está em regime de teletrabalho não tem muito tempo de sobra para fazer outras coisas, e quem está com os filhos em casa… bem… admiro-vos muito! 

Percebi que o meu problema era a ilusão que tinha criado à volta destes dias de isolamento. Tinha feito um filme na minha mente de que iria fazer uma multiplicidade de coisas, como se fosse recuperar o tempo que me tinha sido, no passado, impossível ter. Sabem o que aconteceu? Uma grande desilusão. A desilusão é horrível, não tinha preparado o outro cenário, o lado mais realista do filme, em que a probabilidade de alcançar o que pretendia era baixa, simplesmente, porque estes objetivos eram completamente sobre-humanos. 

Tudo isto para vos dizer que ao longo destes dias, tente apenas encontrar o seu próprio equilíbrio e rotina. Deixe as comparações ou os “deveria fazer isso também”. A sua vida não é uma peça de teatro feita para agradar ao público (exceto se for blogger ou instagrammer ou youtuber). Em suma, se quiser fazer faça, se não quiser, está tudo bem! Faça tudo o que achar melhor para si e para sua saúde mental e física. Liberte-se das pressões e viva a sua vida.

Cécile

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