Uma média de 12 adolescentes dão à luz todos os dias em Portugal. Apesar de impressionar, este número já foi muito superior. Para esta descida mais acentuada nos últimos anos contribuiu o aumento da informação disponível sobre a sexualidade e o acesso às formas de contraceção. Mas é provável que o grosso das gestações precoces não cheguem ao final, já que só em 2009 mais de 2200 raparigas com idades entre os 15 e os 19 anos se dirigiram aos serviços de saúde para interromperem voluntariamente a gravidez. No caso das raparigas com menos de 15 anos, o número de casos não chega a 200.

Este é um tema que remete para as dinâmicas da sexualidade dos jovens, que se inicia cada vez mais cedo. As pressões dos pares, a fugacidade dos estímulos no mundo global e a generalização de conteúdos sexuais nos media e na internet dão lugar a uma liberalização deste tipo de comportamentos. Além disso, inquéritos recentes revelam a crença generalizada por parte dos adolescentes de que metade dos seus amigos já iniciaram a sua vida sexual, quando apenas 1/4 o fizeram na realidade. Entre estes, é habitual recorrerem a um número cada vez maior de parceiros, correspondendo também a um aumento no uso do preservativo em Portugal. Mas ainda há um certo desconhecimento sobre a saúde sexual e reprodutiva e sobre como gerir e negociar o uso do preservativo na relação. E esta negociação é tanto mais exigente se a relação sexual tiver um caráter fortuito e impessoal.

adolescente a refletir encostada a um vidro”

Esta impessoalidade aparenta tornar-se geral e cada vez menos uma função da idade ou género. Se as questões sexuais mais precoces interessavam sobretudo os rapazes, agora dominam também o universo feminino: cada vez mais, e cada vez mais cedo, as raparigas reivindicam a sua liberdade sexual, recorrendo a um maior número de parceiros. A diminuição das assimetrias de género, se garante maior igualdade e sujeita as raparigas a menos criticismos, fez-se também em muito às custas da banalização dos comportamentos sexuais: o sexo não é tabu, mas significa prazer, prazer pessoal e imediato. Deixando outras questões morais de lado, estas transformações culturais são importantes e vão nortear o modo de pensar das novas gerações de adolescentes, com algum impacto positivo. Dirigido ao livre-arbítrio.

A notícia de uma gravidez, numa menina em desenvolvimento, dá lugar a muitos dias de ponderação, assentes numa única pergunta: O que faço agora?. As possibilidades sucedem-se mas levam inevitavelmente a uma de entre duas opções difíceis e irreversíveis. No essencial, elas vão avançar com a gravidez ou terminá-la. Ambas acarretam um turbilhão de emoções que, se mal digeridas, podem provocar feridas em sentidos opostos. No primeiro caso, falamos de mães que podem sentir dificuldades em gerir as necessidades básicas e emocionais do bebé e sentir uma frustração mais ou menos permanente. Outras mães, relativamente mais eficazes no seu papel de cuidadoras, podem no plano mental sentir que abdicaram de projetos de vida e sonhos em prol de um filho que, secretamente, acusam e desprezam. Nestas situações, em que a gravidez apenas é um antídoto contra o sentimento de culpa, da “mãe-homicida” e má, esta imagem do bebé “morto”, no pensamento e nos sonhos, torna-se um elemento de tristeza constante nas suas vidas.

Nos casos em que a gravidez prossegue, um outro tumulto emocional é criado na adolescente. Falamos de uma menina que se transforma em mulher, progressivamente, através de sucessivas alterações hormonais, anatómicas e psicológicas. Esta situação de profunda mudança, normal segundo a lei do desenvolvimento, pode sucumbir num estado crítico, se aliada a uma gravidez. Neste sentido, a gravidez representa uma dupla transformação, tanto ao nível físico como psicológico: a adolescente precisa agora de recorrer às suas representações (mais, ou menos, positivas) da sua própria experiência como filha, e de se transpor, com base nelas, na futura mãe que ela própria se perspetiva vir a ser. Isto requer um movimento de maturação psíquica profundo. E ele é tanto mais possibilitado, quanto estas imagens paternas forem seguras e quanto mais os próprios pais e outras figuras de suporte se mostrarem disponíveis na realidade para assistir às dificuldades práticas e reais de lidar com um novo elemento na família.

casal de adolescentes a discutir, aborrecidos”

A perturbação emocional e os índices de mal-estar nas mães adolescentes manifestam-se num sentimento de solidão e à falta de apoio das figuras circundantes. Podem, por exemplo, queixar-se de críticas ou rejeição dos próprios progenitores ou do meio social, à falta de apoio do pai do bebé ou mesmo a situações de violência emocional e física na relação amorosa. Esta relação com o pai da criança constitui um fator de risco ou de proteção essencial na própria adaptação da mãe. Infelizmente, muitas destas mães podem acabar sozinhas: alguns dados indicam que o número de casais que permanecem juntos após o nascimento do bebé vai decrescendo ao longo do tempo.

Não será surpreendente que os países mais pobres sejam os que apresentam maiores índices de gravidez adolescente. Duarte Vilar, diretor executivo da Associação para o Planeamento da Família diz que muitas destas mães vêm de meios desfavorecidos, que sofreram um trajeto marcado pela falta de oportunidades. Por isso, afastam-se de certo modo da conceção habitual de adolescência e não é raro abandonarem a escola, com poucos projetos na vida. Mas outros estudos indicam que uma proporção importante das gravidezes durante a adolescência surgiu em relações de namoro estáveis, em que embora as adolescentes já não frequentassem a escola, trabalhavam e moravam com o seu parceiro.

Além destes, outros fatores mais ou menos inconscientes podem encapsular o desejo de uma maternidade: o desejo de construir uma nova família para si, melhor e mais gratificante que a original. Ou, de outro modo, menos traumatizante. Isto é verdade para aquelas jovens oriundas de ambientes familiares marcados por pressão e conflitos, ou com condições desenvolvimentais adversas na sua história de vida. Assim, para muitas jovens a gravidez representa simplesmente a esperança de encontrar uma forma de amor diferente, numa nova família, idealizada e construída à semelhança de si própria.

Se os incentivos decorrentes da perspetiva de uma melhor escolaridade e carreira funcionam para adiar a gravidez, ela surge mais como um projeto de vida alternativo; alternativo ao sucesso e realização que elas não obtiveram doutro modo. A gravidez representa para estas jovens um ponto crítico, de rutura ou de potencial desenvolvimento, onde a intervenção terapêutica encontra o seu lugar privilegiado: na deteção e tratamento das dificuldades emocionais, para que a adolescente se foque nos seus próprios objetivos pessoais de longo curso e os balance com os benefícios eventuais de uma maternidade, desejada ou imprevista. O mais importante, independentemente da complexidade e especificade da situação, é levar a jovem grávida a decidir em consciência e segurança, sem julgamentos ou respostas certas pré-concebidas.


Texto de Luísa Coelho, Psicoterapeuta

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