"Dei por mim a dizer à minha mãe: «Sinto que sou a vossa mãe!»"

Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 6

Quem nunca se sentiu pais dos seus pais, ponham o dedo no ar… Pois bem… Mais do que nunca, estes dias de isolamento social têm sido, de forma geral, particularmente difíceis para conseguir consciencializar os nossos maiores de 65 anos. 

Desde o primeiro dia de quarentena que informei os meus pais acerca de todos os cuidados que devem ter e do que devem evitar fazer. Nos primeiros dias, senti que eles ouviram, perceberam e tudo correu tranquilamente. Até ao dia em que a minha mãe me diz que eles tinham mesmo de sair (não vou explicar a razão, mas efetivamente, foi mesmo necessário). A maior parte de vocês sabem que sou psicóloga e psicoterapeuta, mas também sou filha e obviamente, a simples ideia de imaginar os meus pais no exterior, despoletou em mim um pico de adrenalina, que me fez estar em alerta e atenta a cada minuto, enquanto estes dois seres (fantásticos, diga-se de passagem) estiveram fora. 

Quando regressaram pedi que tivessem todos os cuidados que sabem que devem ter, relativamente ao vestuário, lavagens das mãos e cara, e tudo aquilo que nós todos sabemos. Dei por mim a dizer à minha mãe «Sinto que sou a vossa mãe!» pelo que o meu pai responde «Ó filha! Não te preocupes com isso!» ou então «Já passamos por tanta coisa pior e estamos aqui». 

Efetivamente, os nossos maiores de 65 anos, conheceram e experienciaram momentos históricos marcantes como por exemplo: a segunda Guerra Mundial, maio de 1968, a Revolução de Abril, as Guerras Coloniais, e com condições muito precárias. Lutaram muito pela liberdade e para ter uma melhor qualidade de vida. Passaram por muita coisa e por isso não se assustam com facilidade. No entanto, é importante também saber reconhecer a gravidade da situação atual. Não estamos em tempo de guerra, ninguém está a passar forme por causa desta pandemia. Contudo, os números não mentem e sabemos que esta é a faixa etária mais sensível. 

Porque sou filha, psicoterapeuta e psicóloga, quero deixar aqui esta mensagem a todas estas fantásticas pessoas que nos educaram, ensinaram, cuidaram e que deram todo o carinho que podiam dar, mais do que ouvir-nos, peço-vos, por favor, para escutar-nos! Não porque somos mais jovens ou sábios, mas porque este “sacrifício” tem de ser feito por todos, enquanto sociedade unida. Ninguém gosta de ser sentir controlado e preso. No entanto, as regras devem ser respeitadas. Apelo assim ao vosso bom senso. 

Os vossos filhos, netos, amigos e familiares fazem um esforço sobre-humano para vos proteger. Vá…. Vamos todos remar no mesmo sentido? Juntos não custa tanto!

Até já,
Cécile

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