A perda gestacional e o poder de um abraço

O momento em que uma mulher descobre que vai ser mãe é carregado de fortes emoções. Usualmente de felicidade, mas por vezes também de medo. Tantas dúvidas, tantos sonhos que emergem e que vão tomando forma…
Uma imensidão de cenários futuros surge na mente da mulher. Será menino ou menina? Será que vai ter os olhos do pai? Irá gostar mais de Matemática ou de História? Será que vai adorar animais e ambicionar ser veterinário(a)?
Por vezes, no entanto, algo corre mal e o feto que cresce dentro da barriga e da mente da mulher parte antes de chegar ao nosso mundo. Esta situação - o aborto espontâneo - é muito comum, particularmente no primeiro trimestre da gravidez.

Em alguns destes casos, a morte fetal ocorre tão cedo, às primeiras semanas, que a mulher nem se sabia grávida. Para a mulher que é mãe pela primeira vez, a chamada “mãe de primeira viagem”, perder o bebé pode despertar um mar de medos e ansiedades acerca da concretização do sonho de ser mãe. E, depois do aborto, quando surge uma outra gravidez, especiais cautelas são tomadas, tudo para assegurar que aquela dor não surge de novo. A dor de quando a ordem da natureza parece de alguma forma estar invertida. Felizmente, na maioria dos casos, a natureza recupera a sua natural ordem e há um dia em que os ouvidos escutam, e o coração sossega com aquele primeiro choro na sala de partos.

Este não é um tema fácil. Particularmente nos casos em que a gravidez já é evidente para o mundo exterior. Em que estas vivências não passam despercebidas e as perguntas e comentários mais facilmente afloram, tocando na ferida. O intuito de ajudar nem sempre é conseguido, pois cada mulher vive esta perda com a sua subjetividade, e de acordo com os recursos de que dispõe e das particularidades da situação. Mais do que as palavras, importa a demonstração de afeto e empatia. E por vezes um abraço vale mais do que a melhor escolha de palavras.

E para quem vive na primeira pessoa esta perda, depois do momento de compreensão do que acabou de acontecer, depois do momento crítico da dor… como prosseguir? A mulher vive mais intensamente a perda gestacional, que também é sentida pelo pai, família e outras pessoas próximas. Todos juntos podem partilhar entre si e com outras pessoas que passaram pelo mesmo, recorrendo a ajuda psicológica se, e quando necessário, sendo que o essencial é apoiarem-se e deixarem para trás a mágoa e a tristeza. Sem esquecer, honrando a memória daquele bebé ao transportar somente o amor pela vida que se estende pela frente, e abraçando-a por inteiro, em toda a sua plenitude.


Texto por Carla Rama, psicoterapeuta

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