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A experiência de pais com filhos recém-nascidos hospitalizados

Recém-nascido com tubos e fios de suporte de vida

Recém-nascido hospitalizado… E agora?!

Durante a gravidez, toda a mãe deseja um parto bem-sucedido, com o nascimento de um bebé saudável. A hospitalização do recém-nascido faz com que a mãe vivencie, a partir do momento do parto, uma realidade diferente da esperada/desejada. Inicia-se então uma fase marcada por um conflito emocional, gerando sentimentos negativos no casal, tais como a não aceitação da realidade, o desespero e a incerteza em relação à sobrevivência do bebé.

recém-nascido com tubos e fios de suporte à vida

Este internamento do recém-nascido exige à mãe (bem como ao pai e restante família) uma forte capacidade de adaptação a essa realidade, que chegou de forma inesperada logo após o parto, frustrando todas as expectativas da mãe em relação ao nascimento do seu bebé, tão esperado e idealizado durante o período da gravidez. A falta desta capacidade gera fortes repercussões na vida da mãe.

A separação entre a mãe e o filho na sequência da hospitalização conduz a sentimentos de tristeza, medo e stress, dada a fragilidade e insegurança que a mãe sente quanto à vida do seu filho. O instinto básico maternal de proteção sofre um conflito, pois por um lado sente-se impelida a estar com o seu bebé para o proteger, mas por outro sabe conscientemente que a melhor forma de o proteger é permitir a ajuda e tratamento médicos. A culpa pode existir também por se sentir responsável pelo sofrimento do bebé, assim como são comuns sentimentos de esperança e resignação. Nunca será fácil para um pai observar o delicado bebé numa situação de fragilidade acentuada, muitas vezes ligados a fios, máquinas, e possivelmente até numa incubadora. Perante este cenário, é primordial a assistência à mãe (e à família), mas infelizmente ocorrem muitas situações de indiferença que comprometem esse auxílio.

Relatos de mães que experienciaram o internamento do seu recém-nascido traduzem o desamparo, a dor, a incerteza, a ansiedade, o pânico sentidos…

“(…) há uma imagem que não me sai da cabeça e que nunca vou esquecer… a enfermeira a levar o meu filho em braços para outra sala … sem me dizerem uma palavra… eu ali, depois de um parto difícil, vi o meu filho nascer, sem chorar e a ser levado… ninguém me disse nada (…) entrei em pânico e a partir daí não consigo estar longe dele (…)”

“(...) ficamos a idealizar uma gravidez normalíssima, de repente...a noticia foi como uma bomba(...)uma notícia trágica (...) já não sabia se ele ia sobreviver...não sei dizer se é angústia...todos os dias são uma novidade (...) fico numa ansiedade só de ver as enfermeiras a correrem de um lado para outro, e quando acontece alguma coisa ficam todos naquela correria... fiquei muito mal (...)”

“(...) Quando as coisas estão bem [com o quadro de saúde do filho], sinto-me mais animada, mas quando há qualquer problema (...) tenho vontade de morrer.”


Desde o início da hospitalização até que o bebé fique estável, a mãe experiencia sentimentos como a falta do filho, a tristeza, a angústia, a inveja das outras mães que podem estar com os seus bebés. Com o passar do tempo, a família vai -se adaptando à situação e estes sentimentos vão dando lugar a outros, muitas vezes contraditórios como a insegurança, a culpa e a esperança.

O nascimento de um bebé modifica sempre a vida dos pais, mas quando o seu estado de saúde do exige o internamento, esta mudança é bruscamente vincada, sobretudo a nível emocional e nas rotinas diárias da família. A mãe é a mais afetada por esta mudança, ficando total e exclusivamente dedicada ao filho e à difícil tarefa de cuidar de um bebé internado, esquecendo-se de si mesma. A angústia, o medo e a incerteza vivenciados durante todo o período de hospitalização de um filho trazem consequências profundas para a mãe, que abdica da sua rotina, deixa de cuidar de si, deixa de investir na relação com o seu parceiro (muitas vezes culminando na separação do casal), podendo até deixar de investir na relação com os outros filhos, para se focar nas constantes preocupações com o seu bebé. Todo este processo desencadeia, ao longo do tempo, sinais evidentes de desgaste físico e psicológico da mãe.

Diante da repercussão que a hospitalização de um filho pode trazer à vida da família, sublinha-se a necessidade de intervenção especializada, de modo a reduzir o impacto destas situações, a curto e longo prazo, nas mães e, por consequência, nas famílias.

O suporte familiar (sobretudo do pai do bebé) tem um papel essencial de amparo à mãe, ajudando-a a sentir que tem com quem partilhar esse momento tão difícil.

Outro suporte, também ele crucial, é o ambiente hospitalar, na sua função de disponibilizar à mãe as condições físicas que lhe forneçam conforto e minimizem o seu cansaço, mas também, e mais importante, é a necessidade de haver uma comunicação clara entre os médicos e enfermeiros e a mãe, passando-lhe as informações e conhecimentos úteis sobre a situação clínica do seu bebé.

Como agir?

É urgente:

  • Que a mãe seja ouvida, olhada e compreendida no seu sofrimento, no âmbito de uma intervenção especializada;
  • Combater o desgaste psicológico da mãe, que esta seja ajudada a lidar e ultrapassar as suas incertezas, os seus medos, as suas angústias;
  • Promover a redução dos níveis de stress e o desenvolvimento dos recursos emocionais necessários para conseguir enfrentar este desafio, superando-o com segurança e que reúna em si as condições para ser feliz, com o seu bebé, em família.

Texto por Patrícia Raminhos, psicoterapeuta

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