"A confiança no futuro deve ser maior do que a vontade de regressar ao passado"

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Desabafos de uma psicoterapeuta em Quarentena | Dia 27

Neste fim de semana, estive a vaguear pelas redes sociais (reparem na expressão subtil que usei para substituir o termo “cuscar”) e deparei-me com várias publicações de partilhas de memórias com os hashtags #saudade #queriavoltaratrás #quemmederaestaraí. Automaticamente, fui ao meu perfil, espreitar as minhas próprias memórias para ver se também poderia publicar algo do género. E sabem que mais? Não partilhei coisa nenhuma. 

Confesso que, inicialmente, achei a minha reação muito estranha, como é que não tenho saudade daquela viagem ou daquele convívio? Será que estou a ficar insensível? Porque é que partilho cada vez menos? Estarei a perder a minha humanidade? (só entre nós: o isolamento tem esta fantástica capacidade de nos fazer pensar em demasia).

Pois bem, após uma pequena / média introspeção (admito que perdi a noção do tempo), percebi que, obviamente, tenho saudade de estar com as pessoas que sempre me acompanharam ao longo da vida. Contudo, não sinto necessidade de voltar atrás, porque acredito que estes momentos e boas recordações que tenho, foram vividos da forma mais consciente que pude. O que é que isto quer dizer? … Quer dizer que tento esvaziar a minha mente de tudo o que possa poluir a “gravação” daqueles momentos e permitir-me viver cada um deles como sempre foram, únicos. Como é que isto se faz? … Não há segredos, é preciso treinar esta forma de pensar / sentir. 

Desde cedo tive esta consciência da finitude dos momentos, a partir dos meus 11/12 anos, todos os anos, no dia do meu aniversário, surgia-me sempre o mesmo pensamento: “Nunca mais vou fazer xx anos, é só uma vez na vida!”. Hoje penso: “Este dia, nunca mais vai voltar a repetir-se, é só uma vez na vida!”. Por muito que desejássemos, as memórias nunca se vão voltar a repetir, podemos tentar reproduzir exatamente o mesmo cenário com as mesmas pessoas, mas as emoções serão inevitavelmente diferentes. 

Neste sentido, torna-se importante viver cada momento de forma plena. De certa forma, o estado de pandemia veio reforçar esta ideia. Todos nós queremos voltar à rotina que tínhamos antes, mas a verdade é que devemos aceitar que isto não irá acontecer. É tempo de olhar para a frente, guardar as boas memórias dentro do coração, adaptarmo-nos a esta nova realidade e acreditar que iremos viver e registar outros bons momentos. A confiança no futuro deve ser maior do que a vontade de regressar ao passado.

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