O impacto da depressão materna na saúde mental dos filhos

Existe, no senso comum, a consciência de que a família é uma estrutura social fundamental no desenvolvimento do ser humano. Este processo de “ser pessoa”, nada mais é do que um caminho que conduzirá à definição de metas, valores e crenças que condicionarão as experiências de vida do Ser Humano.

Esta construção da identidade do Ser Humano está intrinsecamente dependente das diversas experiências de vida e contextos em que as experiências ocorrem. E, uma vez mais, é sobretudo no seio da família nuclear que se encontram os alicerces de desenvolvimento pessoal e que se vivenciam experiências cruciais para o desenvolvimento da personalidade das crianças. É no seio da família que o mundo adquire significado e que a criança começa a “ser pessoa”.

mãe segura filho bebé no ar a rir

De forma geral, a mãe e o pai garantem as mais relevantes condições de vinculação, a partir das quais se desenvolve a identidade, e constituem modelos primários que estimulam a criança a desenvolver caraterísticas pessoais para a vida adulta.

Porém, é sobretudo a mãe que, nos primeiros anos de vida de um filho, tem um papel preponderante neste processo de vinculação, na construção da identidade e na saúde mental dos seus filhos, gerado pela forma como as experiências são vividas e percecionadas pelas crianças ao longo do processo de “tornar-se pessoa” e os tipos de vínculos afetivos e emocionais estabelecidos na díade mãe-filho.

A maternidade é, por si, a tarefa mais sublime e recompensadora que a vida pode dar a uma mãe, mas também a mais assustadora e complexa. A maternidade exige alterações de rotinas, de hábitos, de atitude perante a vida, exige a mudança de consciência, de como nos vemos no mundo e de como o mundo nos vê a nós! Na sociedade atual, a mulher está sujeita a pressões sociais elevadas, onde se espera dela a conciliação de diversos papéis sociais enquanto profissional, filha, estudante, esposa… e MÃE!

A busca de realização pessoal e profissional não é de todo condicionante da função materna, contudo, muitas vezes, conciliar os diferentes papéis torna-se uma tarefa colossal, quando, ainda nos dias de hoje, recaem sobre as mulheres grande parte das responsabilidades parentais e dos afazeres domésticos, além das exigências profissionais.

É nestes momentos que muitas vezes as mães se sentem presas em conflitos emocionais… sentindo-se sobrecarregadas, querem ter capacidade de resposta em todas as frentes da batalha e, qualquer dificuldade ou falha no desempenho dos diferentes papéis sociais, provoca muitas vezes sentimentos de culpa e ansiedade, sobretudo quando sentem que não conseguem dar resposta às responsabilidades parentais.

Assim se instalam, não raras vezes, os estados de ansiedade e depressão materna, onde são vivenciadas emoções de tristeza, frustração, desânimo e desmotivação.

Os filhos são os espelhos dos pais e, se a ansiedade exacerbada ou a depressão materna se instalam, o impacto na saúde mental e emocional dos filhos será notório. A proteção, apoio, acompanhamento, prestação de cuidados básicos, imposição de regras e limites são alguns dos componentes essenciais no processo de construção da identidade e em todo o processo de formação, aprendizagem e desenvolvimento das crianças.

Porém, uma mãe que se encontre num estado de ansiedade exacerbado ou depressivo torna-se ausente, mesmo presente fisicamente. Muitas vezes são acometidas de um sentimento de incapacidade e inadequação na forma de educar os filhos… daí surge muitas vezes um sentimento de culpa, sentindo muitas vezes que não são mães suficientemente boas para os seus filhos. A ansiedade, fadiga, crises de choro, desânimo, tristeza, dificuldades em dormir, frustração, irritabilidade e falta de paciência são algumas das dificuldades que as mães deprimidas enfrentam diariamente.

mãe e filha partilham momento num cais

Assoberbadas em preocupações e emocionalmente fragilizadas, estas mães têm uma maior dificuldade de estimular a relação afetiva e emocional com os seus filhos, estão muitas vezes alheadas, menos disponíveis para interagir, acariciar e brincar com os seus filhos, ora são muito sobreprotetoras ou rígidas como permissivas, sentem dificuldades em estabelecer regras e limites aos seus filhos, e esta ausência de interações emocionais seguras alimenta a vulnerabilidade e insegurança nas crianças que se tornam emocionalmente instáveis, inseguras, reagem negativamente ao stress, e tornam-se mais vulneráveis a estímulos, externos e internos, de risco para a saúde mental.

Nestes casos, o apoio familiar, o suporte social e uma intervenção terapêutica eficaz são fatores cruciais para que as mães depressivas ou ansiosas possam libertar-se dos seus conflitos emocionais, das suas mágoas e angústias e viver em pleno a bênção da maternidade.

O genuíno envolvimento da família, um pai presente e laços afetivos coesos, também são fatores que ajudam a amenizar o peso que a depressão materna acarreta nas crianças, pois é no seio familiar que, regra geral, existe uma influência ativa e permanente ao longo de todo o processo de desenvolvimento das crianças.

E quanto mais cedo o estado ansioso ou depressivo da mãe for tratado, menor será o impacto no desenvolvimento das crianças, permitindo à mãe libertar-se dos medos e angústias que condicionam o estado mental da mãe e dos seus filhos. E aí, sempre que se colocar a questão: “Que mãe sou eu?”, a única resposta será: “A melhor que posso ser!”.

Texto de Catarina Certal, Psicoterapeuta

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