Imagine que está no supermercado, numa reunião de trabalho, ou simplesmente em casa a ver televisão, e de repente o coração dispara, a respiração torna-se difícil, as mãos ficam frias e suadas, e uma sensação avassaladora de terror toma conta de si. Pensa que vai morrer. Ou enlouquecer. Ou desmaiar. Isto é um ataque de pânico, e afecta cerca de 2 a 3% da população portuguesa em algum momento da vida.
O que é exactamente um ataque de pânico?
Um ataque de pânico é um episódio súbito e intenso de medo extremo que desencadeia reacções físicas graves, mesmo quando não existe perigo real ou causa aparente. O cérebro activa o sistema de alarme de emergência, a resposta de "luta ou fuga", de forma desproporcionada e inesperada. O resultado é uma cascata de sintomas físicos e psicológicos que podem ser absolutamente aterrorizadores para quem os vive pela primeira vez.
Sintomas de um ataque de pânico: o que sente o corpo
Segundo o DSM-5, um ataque de pânico é definido pela presença súbita de pelo menos 4 dos seguintes sintomas, atingindo o pico em minutos:
- ✦Palpitações, coração a bater forte ou acelerado (taquicardia)
- ✦Sudorese intensa
- ✦Tremores ou estremecimentos
- ✦Sensação de falta de ar ou sufocamento
- ✦Sensação de engasgo
- ✦Dor ou desconforto no peito
- ✦Náuseas ou mal-estar abdominal
- ✦Tonturas, instabilidade, cabeça leve ou desmaio iminente
- ✦Arrepios ou afrontamentos
- ✦Dormência ou formigueiro (parestesias)
- ✦Sensação de irrealidade (desrealização) ou de estar separado de si próprio (despersonalização)
- ✦Medo de perder o controlo ou de "enlouquecer"
- ✦Medo de morrer
Importante: os sintomas físicos de um ataque de pânico são reais, não são "imaginação". O corpo está genuinamente a reagir como se houvesse perigo. A diferença é que o perigo não existe externamente, está a ser gerado internamente pelo sistema nervoso.
Porque acontecem os ataques de pânico?
Os ataques de pânico resultam de uma activação excessiva da amígdala, a estrutura cerebral responsável pela detecção de ameaças. Em pessoas com tendência para ataques de pânico, a amígdala torna-se hipersensível e dispara alarmes de emergência em situações que não representam perigo real. Vários factores contribuem para esta hipersensibilidade:
Factores que predispõem para ataques de pânico:
- ✦Predisposição genética, história familiar de ansiedade ou perturbações de pânico
- ✦Stress crónico acumulado, o sistema nervoso fica em estado de alerta permanente
- ✦Trauma psicológico não processado, especialmente trauma de infância
- ✦Consumo de cafeína, álcool ou substâncias estimulantes
- ✦Privação de sono, reduz a capacidade de regulação emocional
- ✦Hiperventilação crónica, altera o equilíbrio de CO₂ no sangue
- ✦Condições médicas subjacentes (hipertiroidismo, hipoglicemia, arritmias)
O ciclo vicioso do pânico: porque os ataques se repetem
Um dos aspectos mais debilitantes dos ataques de pânico é a forma como criam um ciclo auto-perpetuante. Após o primeiro ataque, muitas pessoas desenvolvem "ansiedade antecipatória", o medo de ter outro ataque. Este medo constante mantém o sistema nervoso em estado de alerta elevado, o que paradoxalmente aumenta a probabilidade de novos ataques. A pessoa começa a evitar situações onde teve ataques anteriores, o que restringe progressivamente a sua vida.
Ataque de pânico vs. Enfarte do miocárdio: como distinguir?
Esta é uma das perguntas mais frequentes, e compreensível, dado que os sintomas se sobrepõem. A dor no peito, a dificuldade em respirar e o medo de morrer são comuns a ambos. Algumas diferenças importantes: os ataques de pânico tendem a atingir o pico em 10 minutos e a resolver em 20-30 minutos; a dor no peito do pânico é mais difusa e não irradia para o braço esquerdo ou mandíbula; os ataques de pânico são mais comuns em pessoas jovens sem factores de risco cardiovascular. Perante dúvida, deve sempre recorrer a urgência médica para excluir causa cardíaca.
O que fazer durante um ataque de pânico
Saber o que fazer no momento de um ataque pode fazer toda a diferença. A técnica mais eficaz é a respiração diafragmática controlada, respirar lentamente pelo nariz (4 segundos), segurar (2 segundos), e expirar lentamente pela boca (6 segundos). Isto activa o sistema nervoso parassimpático e "desliga" a resposta de alarme.
Técnica 5-4-3-2-1 para ancoragem durante o pânico:
- ✦5 coisas que consegue VER à sua volta
- ✦4 coisas que consegue TOCAR (e sinta a textura)
- ✦3 coisas que consegue OUVIR
- ✦2 coisas que consegue CHEIRAR
- ✦1 coisa que consegue SABOREAR
Tratamento eficaz para ataques de pânico
A boa notícia é que os ataques de pânico têm tratamento altamente eficaz. A abordagem mais validada cientificamente é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que ajuda a identificar e modificar os padrões de pensamento que alimentam o ciclo do pânico. Na Clínica da Mente, utilizamos a metodologia HBM, que integra Hipnose Clínica, EMDR e Biofeedback, para trabalhar não apenas os pensamentos, mas também as memórias traumáticas e a regulação do sistema nervoso autónomo que estão na base dos ataques.
Os ataques de pânico são aterrorizadores, mas são tratáveis. Com o tratamento adequado, a grande maioria das pessoas consegue eliminar completamente os ataques ou reduzir drasticamente a sua frequência e intensidade. Não precisa de continuar a viver com este medo. O primeiro passo é pedir ajuda.
Referências Científicas
- American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing.
- Craske, M. G., & Barlow, D. H. (2014). Panic disorder and agoraphobia. Clinical Handbook of Psychological Disorders (5th ed.).
- Pompoli, A. et al. (2016). Psychological therapies for panic disorder with or without agoraphobia in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews.


