Ansiedade nos jovens: o despertar da Flor - Testemunho

Ansiedade nos jovens: o despertar da Flor

Olá, eu sou a Flor, tenho 16 anos, sou de Aveiro e ando no 10.º ano.

A minha mãe viu num programa de televisão falarem da Clínica da Mente e decidimos vir porque estávamos a precisar de ajuda.

Nessa altura, devido a algumas situações que tinha passado com os meus colegas de escola, nomeadamente algumas coisas que eles fizeram, comecei a sentir-me mais ansiosa com aquilo que eles diziam e pensavam de mim, de tal forma que me senti totalmente perdida. Comecei a preocupar-me de tal forma que passava os dias nervosa e tinha na mesma que ir para a escola, enfrentar a minha turma. Comecei a vestir roupa mais comprida e tapada para não chamar à atenção, para me esconder. Comecei a prestar atenção aos meus gestos, à maneira como caminhava, às palavras que saíam da minha boca, tudo para tentar ao máximo que eles não tivessem uma ideia errada de mim!

flores azuis em fundo branco acizentado no gargalo de garrafa

Mas quanto mais tentava ser de uma determinada maneira, mais aconteceria o que eu não queria e pior me sentia! Quando vinha para casa, já começava a preocupar-me como ia ser o dia seguinte, perdia-me a pensar no que podia acontecer, no que podia correr mal e não me concentrava no estudo. Sofria por antecipação, sentia-me sozinha e infeliz. Sentia um grande peso no peito como se se estivesse tudo a acumular. Chegou a uma altura em que nem sequer chorar já conseguia.

Nas aulas de Educação Física fazia o mínimo possível para não estar tão exposta perante eles, tentava ao máximo não chamar à atenção, nos intervalos ficava sozinha num canto qualquer da escola, simplesmente a deixar o intervalo passar, à espera que tocasse… Passava mais tempo na biblioteca. Só quando era obrigada a responder é que falava nas aulas, passava o tempo à espera que a aula passasse, olhava muitas vezes para o relógio, na ânsia de ir para casa novamente, e quando tinha que ir ao quadro tremia e não queria fazer nada de estranho que pudesse chamar à atenção das outras pessoas. Tinha medo que notassem que tremia ou corava.

Chamavam-me “maluca”, “estranha”, “feia” e eu sentia-me tal e qual… que não prestava para nada. Passei a comer menos, emagreci porque estava sempre ansiosa, suava, ficava com a boca seca e parecia que me sentia sem força e energia. Sentia que as pessoas se afastavam de mim, mesmo as colegas que eram inicialmente mais próximas, começaram mesmo a julgar-me e a falar nas minhas costas, apesar de se fingirem preocupadas. Achava que tudo isto era por minha culpa. Por minha culpa, eles não gostavam de mim, por aquilo que eu dizia, fazia, por aquilo que eu era.

pescoço de rapariga pormenor preto e brancoOs meus pais tentavam ao máximo apoiar-me e diziam para eu não ligar porque era impossível que as pessoas estivessem sempre assim a olhar para mim, junto da psicóloga da escola tentaram que eu diminuísse os meus medos. A psicóloga da escola ajudou um bocadinho mas estava pouco tempo com ela, não me sentia totalmente à vontade. Fui a uma médica e passei a tomar medicação. Os professores começaram a ser mais tolerantes com esta situação, não me chamavam tantas vezes ao quadro e apenas um ou outro vinha ter comigo perguntar como é que eu estava.

Até que comecei a ter consultas na Clínica da Mente e percebi que poderia melhorar e voltar completamente a ter uma vida normal quando tentasse enfrentar as minhas preocupações. Comecei a desafiar-me e a seguir os conselhos que me davam e quanto mais me desafiava, aos poucos sentia-me cada vez melhor, mais forte. Nem tive bem consciência, as coisas foram acontecendo e ia sentindo que era uma Flor diferente. Agora já participo nas aulas e estou preocupada apenas com as minhas dúvidas da matéria, faço apresentações sem problema, nos intervalos posso interagir mais com as outras pessoas, já não me sinto tensa, como deve ser, melhorei as minhas notas e já sonho com o futuro, estou mais confiante e segura, mais otimista. As outras pessoas já não são um problema para mim e encaro a escola como um trabalho onde quero mostrar que sou capaz. Deixei logo a medicação porque não queria aquilo.

Apesar de ter sofrido muito, esta foi a melhor coisa que me aconteceu porque passei a conhecer-me muito melhor. Se pensar na outra Flor do início do tratamento percebo que não era nem metade do que sou hoje, sinto que me tornei uma melhor pessoa e capaz de enfrentar estas e outras dificuldades. Os outros continuam lá na mesma, fui eu que decidi ver as coisas de outra forma, fui eu que mudei! Antes baixava a cara para não olhar, agora não deixo mais o medo dominar-me.

Se chegaste ao fundo do poço, repara que já não desces mais, por isso pensa que está na altura de subires! Procura ajuda como eu fiz.

Flor

(nome e imagem ilustrativa fictícios)